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"ENTREVISTA" com Kerllen Bortoloso

Atualizado: 10 de Mar de 2019

Levanta a mão quem já ouviu falar deste profissional, o Editor de Texto. Se eu tivesse a oportunidade de fazer essa pergunta para uma grande audiência, aposto que poucas pessoas levantariam a mão. A função do Editor de Texto não é muito conhecida pelo grande público e nem carrega o glamour da reportagem e ancoragem de um telejornal. Por isso, decidi falar sobre esse profissional que tem um trabalho pra lá de emocionante! Entrevistei uma editora que tive a honra de trabalhar em algumas redações aqui no Rio de Janeiro, Kerllen Bortoloso.



Kerllen foi repórter e Chefe de Jornalismo na afiliada da TV Bandeirantes em Barra Mansa, interior do Rio de Janeiro, época que eu era a Editora-Chefe do Jornal do Rio. Depois trabalhamos na Rede TV, onde ela atua na edição do jornal Rede TV News.


1. Você foi repórter durante muito tempo e, de uns anos para cá, tem atuado na edição de telejornal. Ambas as funções são bem dinâmicas e carregam a adrenalina do telejornalismo. Como foi essa transição?


Kerllen: Confesso que migrar da reportagem para a edição foi uma escolha que optei para ajustar meus horários em função da maternidade. Mas logo percebi que foi a melhor decisão que tomei na minha profissão. A reportagem tem diversos pontos que me encantam, o principal deles é o contato com as pessoas, poder conhecer lugares, mesmo aqueles dentro da própria cidade que dificilmente conheceria se não fosse a reportagem. Contar histórias sempre foi o que mais me motivou. E isso não deixei de fazer na edição. Nesse trabalho, quase sempre procuro fazer os textos a quatro mãos com o repórter. Não consigo fazer de outro jeito. E, claro, duas cabeças sempre pensam melhor que uma!


2. Você que já trabalhou na rua, agora faz a cobertura do acontecimento da redação. Conta um pouco sobre o seu trabalho na edição?


Kerllen: Sempre que possível converso com o repórter antes dele ir para a rua. Trocamos ideias, pensamos na forma de como construir o VT. Seguimos a pauta e sempre que é preciso buscamos novos personagens, lugares que podem ajudar a contar melhor a história. Daí, começamos a dividir tarefas. Depois partimos para a construção do texto. Isso tudo é pensado entre nós dois, o repórter que está na rua e eu, na redação.


Pensamos em todas as imagens de que dispomos e que ainda precisamos. Se não forem suficientes buscamos recursos gráficos. Eles ajudam na ausência de uma imagem ou para detalhar um acontecimento. É um texto que, na maioria das vezes, nasce pelas mãos do editor com informações do repórter que está na rua, como é o caso da dinâmica de um crime, ou por meios de pesquisas, no caso de mapas de localização.

Pensamos nas perguntas a serem feitas aos entrevistados, no texto da passagem (momento em que o repórter aparece em vídeo). Esse texto curto pode passar ou não pela minha aprovação. Em factuais, em que as coisas acontecem rápido e o repórter não pode perder tempo nem a cena, muitas vezes ele grava sem aprovação. Em caso de VTs produzidos, feitos com um pouco mais de tempo, eu aprovo esse pequeno texto antes dele ser gravado.


Como eu trabalho em um horário mais próximo ao fechamento do jornal geralmente a gente vai ajustando o texto do VT antes mesmo da equipe retornar à redação. E quando ela chega o “off” já está pronto para gravar. Com isso feito, hora de partir para a ilha de edição e contar com o trabalho de mais um colega: o editor de imagem. Juntos escolhemos a melhor imagem para “casar” com o texto gravado. Algumas vezes o repórter, ou até mesmo o cinegrafista, indica uma imagem feita especialmente para um determinado trecho do VT.


3- Divide com a gente, alguns casos de repercussão que você participou?


Kerllen: Como repórter me lembro bem dos dias de caos que antecederam a ocupação do Alemão. Foi um período de tensão por causa da violência nas ruas. Veículos queimados, apreensão pela segurança da equipe nas ruas do Rio. Foram dias de muito cansaço físico e dúvidas que se misturavam às questões pessoais. Nas coletivas de imprensa éramos os jornalistas questionando às autoridades para que a verdade chegasse a casa do telespectador e cidadãos temendo a própria segurança e de nossas famílias.


Já na edição posso citar as manifestações de 2013, que começaram com o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro. Mesmo na redação, senti a tensão de quem estava na rua. Os relatos das equipes que ao mesmo tempo em que buscavam a notícia tentavam se proteger de ataques e hostilidade à imprensa. Muitas vezes tinha que coordenar mais de uma equipe, trocar ideias com outros editores para que quem estava nas ruas relatasse o fato de perspectivas diferentes. O mais difícil era dar a notícia sem expor os profissionais ao perigo.


4- Que tipo de notícia você mais gosta, mais te motiva a buscar o fato?


Kerllen: Aquela que está acontecendo, o que chamamos de factual. Gosto da correria, do envolvimento de toda a redação. Além da equipe que está na rua, nos factuais o produtor e o apurador participam não apenas antes do repórter ir para a rua. São profissionais fundamentais durante todo o processo. Buscam fontes e deslocam a equipe para onde a notícia está.


Claro que ninguém gosta de noticiar tragédias e, se me perguntarem, sempre vou preferir dar boas notícias. Mas como não podemos evitá-las, o mínimo que o jornalista pode fazer é dar uma notícia ruim com verdade ou com sensibilidade. Isso me deixa com uma sensação de dever cumprido.


5 - Em poucas palavras fale sobre:

- Altos e baixos da profissão?


Kerllen: Ver a notícia no ar depois de tanto esforço é muito gratificante. Porém ver a crise tão de perto nas empresas, enxugando cada vez mais o quadro de funcionários, é triste e preocupante.


- Erros que não podem se repetir?


Kerllen: Quando ele prejudica uma pessoa ou um grupo. Informação errada é muito grave.


- Notícias que nunca esqueceu?


Kerllen: Em 2004, uma equipe de televisão denunciou o tratamento negligente em um hospital psiquiátrico na baixada fluminense. Era o maior da América Latina. Fomos até lá. O que vi nunca mais esqueci. Eram centenas de pacientes vivendo em condições sub-humanas. A unidade ficava localizada em uma área muito grande. Os pacientes perambulavam sujos, nus e com fome pelas dependências do hospital. A gente seguia até os pavilhões de carro com cuidado porque a todo momento éramos surpreendidos por um paciente. Eu nunca tinha visto tamanho descaso pela vida humana. Depois das denúncias dos diversos veículos de comunicação houve uma intervenção conjunta dos poderes municipal, estadual e federal. Anos depois a instituição transferiu os pacientes e fechou as portas. São cenas que nunca mais saíram da minha memória.


- O que diria a quem está começando no jornalismo?


Kerllen: Seja verdadeiro, apure, apure de novo. Ouça os dois lados. Não há versões, apenas fatos merecem ser noticiados. E boa sorte!


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